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Além do Paraíso

Al Final del Paraíso é um testemunho gráfico do nosso tempo. O seu carácter híbrido permite que signos, símbolos e imagens, tanto históricos ou políticos como também da cultura contemporânea, se mesclem num contínuo processo de transformação. Os contactos são geradores de fricções, reajustamentos e campos de tensão nos quais é difícil encontrar um lugar confortável ou silencioso. Aqui, elementos relacionados com a identidade nacional, a memória e a vida quotidiana aparecem com outros elementos como a sátira e a invectiva. A presença destas faz do mosaico iconográfico algo de complexo mas também de lúdico, esquivo, fresco e, acima de tudo, crítico, actual.

Demián Flores (Juchitán, Oaxaca, 1971) tem centrado a sua actividade artística na experimentação de diversas técnicas e linguagens gráficas. O labor de Flores tem-se caracterizado por provocar choques e contágios entre esferas de produção cultural distintas e por manter um diálogo activo com o contexto sociopolítico da sua terra natal, situada no sul do México. No seu trabalho existe uma prática constante de edição, de recuperação, de recorte e montagem, de apropriação, dando origem a um vastíssimo repertório de imagens e possíveis vias de investigação sobre o porvir da arte gráfica contemporânea.

Com as descobertas geográficas do século XVI e o aparecimento, à época, do “Novo Mundo”, a ideia sobre a existência do Paraíso assumiu novas formas e reconhecimentos. O encontro deslumbrou os europeus, cujo contacto com aquelas terras longínquas ocorreu através dos escritos realizados, primeiro, pelos descobridores e depois, pelos conquistadores. Foram eles os cronistas desta nova realidade que cativou o homem ocidental e também que projectaram nos territórios recentemente descobertos as suas ideias utópicas e crenças religiosas, dando forma a um Paraíso Terrestre, idealizado e povoado de estranhas criaturas.Frei Bartolomeu de Las Casas mencionou nas suas crónicas que os habitantes pareciam pertencer à Idade de Ouro: “são simples, sem malícia, repletos de amor para com os seus, desprovidos de qualquer ambição terrena”. Por outras palavras, Frei Bartolomeu cria ter encontrado o “bom salvagem”, aquele habitante de Arcádia que o mundo ocidental ansiava recuperar antes que se convertesse num inimigo hostil, capaz das piores atrocidades; o fim do Paraíso havia sido consumado. Na ordem moral, era inventada a América. Uma vez ultrapassado o questionamento sobre a origem humana dos nativos, havia então que evangelizá-los e em simultâneo, fazê-los merecedores de um outro Paraíso, o Celestial. Tinha, assim, início a realidade do México, que a sangue e fogo perdura até aos nossos dias.