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Lisbon and connections

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Notas sobre o Haiti



Naquela que foi a sua primeira viagem às Américas em 1492, o Haiti, foi à época baptizada por Cristóvão Colombo por Hispaniola. Ilha das Caraíbas, oficialmente designada como república do Haiti, foi desde muito cedo um dos territórios coloniais de exploração do trabalho dos escravos africanos, o que justifica que hoje 95% da população seja negra e as religiões praticadas sejam o vodu e o catolicismo. Mas a história do Haiti é uma história de revoluções pela justiça, ensombrada por um século XX de ditaduras, repressões e de sofrimento causado por catástrofes naturais.

O Haiti conquistou a independência em 1804 como resultado de uma revolta dos escravos tronando-se na primeira nação independente da América (Latina). A Revolução Haitiana, feita por escravos e negros libertos, durou quase uma década; todos os primeiros líderes do governo foram antigos escravos. Esta independência aconteceu apenas vinte e oito anos após a Independência dos EUA (1776) e 15 anos depois da Revolução francesa (1789). E, contudo, os pensadores e protagonistas do Iluminismo europeu não lhe atribuíram qualquer importância. Hegel, por exemplo, segundo os excelentes estudos de Susan Buck-Morss, autora de “Hegel and Haiti” publicado originalmente na revista Critical Inquiry, no Verão de 2000, e de uma curta monografia intitulada Hegel, Haiti and Universal History publicada em 2009. Nestes textos, aponta a contradição de Hegel entre a proclamação da necessidade da Liberdade Universal e a recusa em aceitar essa mesma liberdade quando se trata de africanos. A autora afirma que tendo o jovem Hegel tido conhecimento da revolução no Haiti,[1] nomeadamente através dos jornais Minerva e Morning Post, leitura usual do filósofo, esta foi de certeza inspiradora da sua filosofia de libertação do escravo no âmbito da sua tese sobre a liberdade conhecida como ‘a dialéctica do mestre e do escravo’. Mas, defende a autora, tal ausência de referência à revolução, reveladora de desconsideração, deve-se ao facto de o Iluminismo europeu ser incapaz de admitir uma ruptura histórica, um ‘evento descontinuado com a trajectória da história’, dado o seu carácter racista. E esta contradição diz bem do que era a filosofia da liberdade inscrita pelo pensamento europeu mais moderno. Como analisa Soren Whited, a propósito da perspectiva de Buck-Morss sobre Hegel: “Hegel is representative of what Buck-Morss sees as the hypoc­risy of modern Europe in general, where in the pursuit of freedom was carried out in theory but only partially and selectively in deed “ (Whited, 2009: 2).

Depois de um século xx de regimes ditatoriais e repressivos com figuras tenebrosas como François Duvalier, conhecido como Papa Doc (1964-1971), e seu filho Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc (1971-1986), a 12 de Janeiro de 2010 um terramoto de proporções catastróficas atingiu o país, já de sim um dos mais pobres do mundo, tendo destruído 80% das habitações da capital Porto Príncipe e o número de mortos ultrapassado os 200 mil.

Ainda em reconstrução lenta, é atingido pelo furacão Matthew a 8 de Outubro de 2016, provocando a destruição e a morte a que se seguiu uma epidemia de cólera. Uma leva de emigração que se tinha iniciado em 2010 para o Brasil, México, Colômbia aumentou e o Chile, por exemplo, recebeu o ano passado 16 mil imigrantes haitianos e espera receber este ano 40 mil.

Vem tudo isto a propósito da recente exposição inaugurada no Centro Cultural Gabriela Mistral em Santiago do Chile do artista haitiano Edouard Duval-Carrié – Paisagens imaginadas. A apresentação da exposição diz: “La exposición Paisajes imaginados reúne pinturas, grabados, instalaciones y esculturas a gran escala producidas en la última década por el artista, donde adapta de manera innovadora la iconografía tradicional haitiana. Las obras de Duval-Carrié involucran extensas investigaciones sobre el tema del paisaje visto desde la periferia, sobre cómo el Caribe se sigue vendiendo como un paraíso tropical, oscureciendo las disparidades económicas y sociales existentes. Otra parte de la exposición se refiere, desde una visión contemporánea, al sincretismo religioso y social de Haití.”

[1] A revolução haitiana foi desencadeada por uma série de insurreições armadas por parte dos negros de São Domingo contra os esclavagistas brancos da ilha, em 1791. Os revoltosos aboliram a escravatura e pretendiam aprovar uma constituição multirracial.